1
Estava abafado. Novembro, e do outro lado da janela havia nevoeiro, e aquele nevoeiro era morno. Terra queimada, óleo de tungue e o rio. O soalho de tábuas cedia. Das lâmpadas penduradas do tecto, uma em cada duas estava fundida.
À volta de uma mesa comprida levantavam-se homens magros. As fardas estavam desbotadas e algumas dragonas remendadas. O mais velho disse com voz trémula:
— O Mandato do Céu.
Nesse instante a sala partiu-se.
— Não pode ser outra coisa.
— Prova de que o Céu não nos abandonou.
— E a quem é que o Céu se manifestou?
Ah, pensou. No Japão o exército e a marinha disputavam como interpretar a luz. Aqui disputam a quem é dirigida. Uns ajoelhavam-se; outros não se ajoelhavam, mas olhavam depressa para as caras à volta, e destes havia mais. Nesta sala, que o Céu tivesse descido era um acontecimento muito menor do que de que lado tinha descido.
Tocou o bolso direito. A discussão cortou-se.
— Um oráculo do Céu?
— Não — disse. — Um telemóvel.
2
Esquadra de couraçados de elite Disponível Economia de guerra Disponível Missão diplomática Disponível Avanço inicial na investigação Disponível Crónica de campanhas Desbloqueado …… Ajuste para potências menores Requisitos não cumpridos …… Arquivo do almirante Campanhas concluídas 2 Nações concluídas 2 ―――――――――――――――― Cenário seguinte Frota moderna Requisitos não cumpridos
Podia tomar quatro. A esquadra não a tomou; a razão era a mesma do mundo anterior. Se lhe perguntarem de onde vêm os navios, não sabe responder. E este país não tem porto onde manter à tona oito unidades de elite.
Tomou a economia de guerra e o avanço na investigação. Tomou também a missão diplomática: quando este país se sentar à mesa, as suas relações com os que ocuparem as cadeiras ao lado começarão um pouco melhores. Nada mais do que isso, e para este país isso era tudo.
Depois o dedo parou-lhe numa das linhas cinzentas.
Ajuste para potências menores Reforça-se por etapas a cada vitória como potência menor Etapa 1 = voluntários estrangeiros sem custo / Etapa 2 = recursos por turno / Etapa 3 = aliança com uma grande potência desde o início
Vence com um país pequeno e dão-te ajuda para países pequenos. Percebeu o mecanismo em três segundos e quase se riu. Para obter a primeira etapa é preciso vencer uma vez sem ela.
Guardou o telemóvel e levantou a cabeça. Os homens magros olhavam para alguém que acabara de tocar no invisível.
— Posso saber o nome do presidente da Comissão?
Devolveram-lhe um nome que não conhecia. Assim devia ser.
— Daqui a dezoito dias, na manhã de oito de dezembro, o Japão e os Estados Unidos entram em guerra. Quatro anos de solidão acabam nessa mesma noite.
Desta vez a sala partiu-se por outra linha.
3
Fizeram-lhe três perguntas.
Terra. Lin, o chefe do Estado-Maior, abriu um mapa do continente: um mapa que ainda guardava quatro anos de lápis vermelho.
— Se o Japão retirar tropas para o sul, a pressão no continente deve aliviar. Mas a Hong Kong e a Changsha pode, pelo contrário, vir um golpe. Apostamos no alívio ou preparamo-nos para o golpe?
— Vêm as duas coisas.
— As duas.
— Vão retirar para o sul. E ao mesmo tempo vão bater aqui. Para poderem retirar, querem primeiro que aqui haja silêncio.
Lin não se mexeu, com o lápis na mão.
— A data.
Deu a data. No mundo de onde vinha, foi nesse dia. Depois acrescentou o que aprendera no mundo anterior.
— No entanto. Eu sou capaz de me enganar.
A sala agitou-se. O Mandato do Céu acabara de admitir que se engana.
— O que eu sei é a história de um mundo em que não entrei. Este mundo difere um pouco daquele, e a diferença cresce a cada dia. Estão no seu direito de acreditar em mim. Mas tenham um segundo plano para quando eu me enganar.
Lin olhou para ele muito tempo. Depois pousou o lápis e disse:
— Conselheiro. Há quatro anos que combatemos exactamente assim.
Mar.
Levantou-se Guan, representante do departamento naval. Na marinha dele não havia um único navio que pudesse sair para o mar alto.
— Toda a costa está fechada. Mas se os americanos e os britânicos entrarem na guerra, o sentido do bloqueio muda. Com os navios que restam, o que devemos deixar preparado para esse dia?
Esta pergunta agradou-lhe.
— Três coisas.
— Diga.
— Primeira. Contem agora as embarcações fluviais e costeiras. Façam um registo: nome do dono, quanto carrega, calado máximo. Vão usá-lo daqui a dois anos. Mas se começarem a contar daqui a dois anos, será tarde. Segunda. Formem estivadores agora. No dia em que o porto abrir, o que vai faltar não são navios, mas gente para descarregar e estradas para mover o que foi descarregado. Terceira. Mantenham um livro. O que chegou e onde. Onde desapareceu o que não chegou. Esta última é uma precaução contra os próprios.
A cara de Guan retesou-se.
— Porquê isso?
— Vi dois países — disse. — A primeira coisa que um país que recebe ajuda perde não são os bens. É a confiança.
Estado. Gu, pelo Yuan Executivo, falou por último.
— Quando o Japão e a América estiverem em guerra, já não seremos solitários, mas aliados. A estrada da Birmânia e a ajuda que virá. O que pedimos e o que damos em troca?
— Peçam um lugar.
— Um lugar.
— Um lugar à mesa quando a guerra acabar. Tomem-no antes dos bens. Os bens vêm depois. Os lugares, depois, não vêm.
4
Todas as decisões foram tomadas nessa noite, e já não se puderam desfazer. Passaram dezoito dias e a oito de dezembro o Japão e os Estados Unidos entraram em guerra.
Nessa noite rebentaram foguetes nas ruas de Chongqing. Ele via da janela. Quatro anos de solidão tinham acabado nessa noite. Nalgum ponto da cidade alguém cantava. Não percebia a letra, mas percebia o que estava a ser cantado.
Lembrava-se do que vira em dois mundos. Em Washington, naquela manhã, morreu gente. Em Tóquio, naquela manhã, virou-se uma ampulheta. O mesmo dia teve três sentidos diferentes em três salas. E dos três, esta era a sala mais contente. O país mais fraco era o mais contente.
5
Os três anos e meio seguintes foram os mais imóveis da sua vida.
O circuito do radar tinha-o na cabeça até ao último fio. Também as tabelas metalúrgicas, as cartas de controlo de processo, o modo de fazer antibióticos: tudo o que entregara nos dois mundos anteriores. Neste país não havia fábrica que o transformasse em objecto. Washington tinha as três coisas: a fábrica capaz de construir, o engenheiro capaz de construir e o navio onde montar. Tóquio tinha duas. Aqui não havia nenhuma.
Soube-o nos primeiros seis meses. Aquele que era um mundo antes ter-se-ia detido aqui, pensa. Não se deteve. Se não há fábrica, entrega o que não precisa de fábrica.
Antibióticos não se fazem. Mas o procedimento de ferver e lavar as mãos pode distribuir-se hoje. O radar não se monta. Mas como faz sentinela um vigia e em que formulário reporta pode mudar-se amanhã. Uma carta de controlo não se traça. Mas para manter um livro basta papel e lápis.
Desmontou peça a peça tudo o que trazia e recolheu apenas as partes que se podiam carregar ao peso deste país. Depois pôs-se a andar.
6
O primeiro que foi ver era um homem que não obedecia a ordens. Ma Zhenyuan, o poder num dos exércitos provinciais, que durante quatro anos ouvira o centro só quando lhe convinha. Dizia-se que chamava ao homem descido do céu «um ídolo fabricado pelo centro».
Levou só três guardas e demorou quatro dias a chegar ao quartel-general dele. Ma fê-lo esperar três dias. Ao quarto recebeu-o.
— Dizem que desceste do céu.
— Sim.
— A que vieste?
— Queria ver o registo das embarcações.
O pedido pareceu apanhar Ma desprevenido.
— Barcos. Isto é a montanha.
— Há um rio.
— Que têm os barcos do rio?
— O número que as suas unidades comunicaram ao centro no outono passado não coincide com o real. Quero o real. Não vim exigir contas pela diferença.
Ma calou-se muito tempo.
— Porque não exigir contas?
— Daqui a dois anos o porto abre — disse. — Nessa altura será preciso alguém que consiga mover a carga para o interior. Neste país não há mais ninguém além de si que o consiga. O centro não tem barcos. Nesse dia não quero estar de mal consigo.
— Vens agora falar-me de daqui a dois anos?
— Sim.
Ma riu-se. Depois mandou um subordinado buscar o registo.
Em dois mundos vira o mesmo tipo de homem. Os isolacionistas na América. Os oficiais do estado-maior do exército no Japão. Cargos diferentes, convicções diferentes, países diferentes. E ambos temiam a mesma coisa: que outro decidisse por eles qual era a sua parte.
Isso aprendera-o em dois mundos. Não era conhecimento. Não era técnica. Era só que tinha olhado para as pessoas duas vezes.
E neste país foi a única coisa que funcionou.
7
Na primavera de 1943 foi ter com ele o encarregado das comunicações.
— Conselheiro. Subiu uma notícia estranha.
— Diga.
— O bloqueio costeiro japonês apertou.
— Apertou em que sentido?
— Antes passávamos ao abrigo da noite e do nevoeiro. Já não passamos. Aprenderam os hábitos dos nossos barcos.
Não levantou a cabeça.
— Nos fragmentos de decifração não há alguma palavra sem sentido?
O homem susteve a respiração.
— Como sabe isso?
Não respondeu. Também do outro lado tinham descido.
Desta vez ficou um pouco surpreendido. Neste país não tinha tirado nem radar nem espoletas: não havia fábricas, não podia. Um registo de barcos, formação de estivadores, um livro. Só isso. E ainda assim chegou. Parece que o rasto não é decidido pela aparatosidade. É decidido por quanto te afastaste do que aconteceu. Antes de ele chegar, este era um país onde a carga não chegava. No mês em que começou a chegar, chegou o outro lado.
Tirou uma folha e anotou as datas. No primeiro mundo, o verão do segundo ano. No segundo, a primavera do segundo ano. No terceiro, a primavera do segundo ano. Os três caem aproximadamente no mesmo sítio. A olhar para esses três, pensou pela primeira vez que aquilo talvez se pudesse ler como uma escala.
8
Em 1944 a estrada da Birmânia foi abrindo pouco a pouco. O porto abriu depois. Nesse dia, o registo de embarcações menores feito por Guan, os estivadores formados e os barcos fluviais de Ma moveram-se no mesmo dia. Três coisas decididas numa noite três anos antes voltaram todas num só dia três anos depois.
Nesse dia ele estava no cais, a ver a carga descer. Arroz, medicamentos, máquinas e caixotes com números estampados. Um escriturário anotava cada um, no livro que ele mandara manter três anos antes.
Guan aproximou-se e pôs-se ao lado dele.
— Conselheiro. O mar voltou.
— Sim.
— Não temos um único navio de guerra.
— Não.
— E no entanto a carga chega pelo mar.
Assentiu. Pode um país que perdeu o mar sobreviver com o abastecimento que vem do mar? Três anos e meio de resposta passaram à frente dele em forma de caixotes de madeira.
9
No verão de 1945 chegou. A terceira vez. Neste país foi o que trouxe o fim. Oito anos de guerra acabaram.
Tirou a folha e escreveu a terceira linha. Verão de 1945 — concluído. Três. Três mundos, três guerras. O país que fez vencer, o país que levou a um fim negociado e o país que não conseguia fabricar nada. Só aquele verão esteve as três vezes no mesmo sítio.
Antes pensava assim: faça o que fizer, isso não se move, logo sou impotente. Agora é um pouco diferente. Se o imóvel esteve três vezes no mesmo sítio, não é um muro: é um marco. Dezoito dias e o verão de 1945. Entre dois pontos que não se podem mover, quanto é capaz de fazer? Só isso, de cada vez, é a questão.
Em três tentativas, essa margem tinha-se alargado, sem dúvida.
10
Naquele outono Guan convidou-o para uma pequena celebração no escritório do cais. Quando acabou, ao descer a escada das traseiras, tocou o bolso direito. A terceira vez. Já não parava.
ATLAS A operação neste mundo foi concluída com êxito. As tuas decisões mudaram este mundo. Escolhe o que queres levar para o próximo.
Abriu a aplicação. Quatro linhas tinham ficado negras.
Força de porta-aviões Desbloqueado Investigação acelerada Desbloqueado Título de navio-almirante Desbloqueado Ajuste para potências menores Desbloqueado (etapa 1) …… Arquivo do almirante Campanhas concluídas 3 Nações concluídas 3 ―――――――――――――――― Cenário seguinte Frota moderna Requisitos não cumpridos Permanecer neste mundo Requisitos não cumpridos
Ajuste para potências menores. Etapa um.
Três anos e meio, por uma etapa. Faltam duas etapas, faltam dois países pequenos.
Aquele que era um mundo antes talvez se tivesse abatido com aquele número. Não se abateu.
Em vez disso leu de cima a baixo as linhas que continuavam cinzentas.
Grupos aéreos veteranos Vencer destruindo uma frota inimiga a partir do ar Exército experimentado Vencer tomando a capital inimiga por terra Herança tecnológica Vitória decisiva Mobilização industrial Concluir cinco campanhas Rede de reconhecimento Concluir em «Histórico» ou superior Modo ferro Concluir em «Histórico» ou superior Inferno+ Concluir em «Inferno» Herança de navios condecorados Vencer com um navio condecorado à tona
As condições estavam escritas.
Ao dar-se conta, parou a meio da escada.
Durante três mundos as linhas tinham ficado negras sozinhas. Por isso não as lera. Não era preciso lê-las.
As condições estão escritas. Ou seja: podem ser perseguidas.
Aquelas oito linhas leu-as de cima a baixo três vezes.
As duas linhas abaixo do traço continuavam cinzentas. Não se pode permanecer. Também à terceira vez.
Fechou o ecrã.
Depois de o fechar, o chão acendeu-se-lhe sob os pés. Havia nevoeiro, e a luz desfez-se nele numa brancura difusa, e era muito bonito.
Mudou o cheiro. Não óleo de tungue: madeira polida, cera e metal frio. Debaixo das solas, a dureza de um parquet.
Ninguém se ajoelhou. Ninguém rezou. Ninguém levou a mão ao coldre.
Da outra ponta da mesa comprida, um homem com cordões de estado-maior disse em voz baixa ao que estava ao lado:
— Registe o fenómeno.
Outro respondeu:
— Se for uma arma, análise.
O mundo seguinte era a Alemanha.
