1
Na segunda vez ele não se assustou. Ficou vendo a luz se recolher para cima a partir dos pés. O brilho deixou a palma e o couro da pasta voltou a ser couro comum. Mudou o cheiro: não café e charuto, mas alcatrão de fumo, papel úmido, papel encerado.
Caiu uma cadeira. Papéis voaram. Um policial militar do lado de dentro da porta levou a mão ao coldre e ficou parado, porque em nenhum regulamento deste país estava escrito se devia sacar. Catorze homens olhavam para ele. Um almirante idoso se levantou e se curvou fundo.
— Interpretamos isto como o advento de um deus da guerra.
Ah, ele pensou. É assim que recebem aqui.
Quatro anos antes — quatro anos antes para ele, quatro anos antes num mundo que aqui não existe —, na Sala do Gabinete em Washington, um tinha se ajoelhado rezando e outro tinha gritado para ventilarem. A fé e a ciência tinham recebido a mesma luz de dois jeitos.
Aqui a rachadura corria diferente. Do lado do almirante que tinha se curvado, um homem de farda, sem tirar a mão do coldre, disse:
— Feitiçaria. Um truque armado pela Marinha. Nesta noite, nesta sala. Coincidência demais.
Não era questão de aceitar ou duvidar. Duas forças tinham começado a disputar de quem era aquela luz.
Tocou o bolso direito.
2
Ele tirou o celular. Dessa vez a mão não tremeu.
ATLAS Suas decisões vão mudar este mundo. Escolha o que quer levar. Depois, faça como quiser.
Apareceu a lista.
Esquadra de encouraçados de elite Disponível Economia de guerra Disponível Crônica de campanhas Desbloqueado Força de porta-aviões Requisitos não atendidos …… Arquivo do almirante Campanhas concluídas 1 Nações concluídas 1 ―――――――――――――――― Próximo cenário Frota moderna Requisitos não atendidos
Dois ou três encouraçados de elite, com cruzadores pesados e destróieres de escolta. Umas oito unidades. Quando você começar da próxima vez, vai poder levar essa formação.
Ele leu duas vezes e não pegou. A razão é simples: se perguntarem de onde saíram aqueles navios, ele não sabe responder. Que um homem desça numa coluna de luz, os catorze desta sala viram. Mas oito navios de guerra fundeados numa baía, como se explica isso? Um milagre que ninguém viu não é milagre: é suspeita.
Ele pegou o segundo.
Economia de guerra Recursos adicionais no começo.
Um pouco mais de reserva. Só isso. Ninguém vai notar. Ninguém vai pedir explicação. O mais forte é aquilo que não precisa de explicação. Ele pensou isso, e aí notou que estava raciocinando dando como certa uma «próxima vez».
Guardou o celular e levantou a cabeça. Catorze homens tinham observado em silêncio alguém tocando no invisível.
— Onde está o primeiro-ministro?
— Aqui, senhor.
— Posso saber o seu nome?
Um funcionário de cabelo branco respondeu hesitando.
— Arima. Arima Yasuo.
Ele assentiu. Não era um nome que conhecesse, e era assim que devia ser. A checagem estava feita. Não é o passado. É outro mundo, muito parecido. O que ele sabe se sustenta aqui como hipótese. Na segunda vez ele tinha aprendido a apurar isso nos primeiros trinta segundos.
— Daqui a dezoito dias, na manhã de oito de dezembro, este país vai entrar em guerra com os Estados Unidos.
3
Convencer todos levou menos de um minuto. Em cima não duvidaram: catorze homens viram a luz descer no mesmo instante, e isso bastou. Antes de a noite acabar ele conseguia chegar em quase todas as decisões deste país.
O problema estava fora da sala. Em Washington mesmo assim passava: aquele era um exército onde as ordens correm de cima para baixo. Aqui é diferente, e isso ele ia aprender no corpo ao longo de dezoito dias.
4
Aqui também fizeram três perguntas, na ordem de terra, mar e Estado.
Terra. Horiuchi, o chefe do Estado-Maior, entrelaçou os dedos em cima da mesa.
— As divisões pregadas na fronteira norte desde as manobras especiais ainda não podem se mexer. O desfecho no ocidente também não está claro. Se baterem na nossa fronteira norte no meio da operação do sul, o que a gente abandona, o sul ou o norte?
— O norte não vem. Pelo menos o ano que vem inteiro não vem.
— Fundamentos.
— Eles estão atolados no ocidente. Já estão tirando divisões do Extremo Oriente para o ocidente. O que é tirado não volta.
— Como o senhor sabe disso?
— Eu sei. No mundo de onde eu venho.
Horiuchi franziu a testa com a expressão. E aí, pela primeira vez, sentou. Sentar era o sinal de que a discussão ia continuar.
Mar. Hashiguchi, chefe do Estado-Maior Naval, bateu com as costas do dedo na margem norte, em branco, da carta. O mesmo almirante velho que tinha se curvado.
— A força de ataque está reunida na baía de Hitokappu. Zarpa daqui a seis dias. Ao zarpar entra em silêncio de rádio. Se for para parar, esta noite é a última.
Aquela frase acertou ele. Não «vai dar certo?», mas «a gente para?» — e esse velho estava perguntando isso para um homem que tinha descido do céu uma hora antes, de quem ele não sabia o nome.
Foi aí que ele entendeu pela primeira vez onde estava pisando. Naquela manhã, quem estava do outro lado era ele. Botou os porta-aviões a nordeste, abriu o leque de patrulhas para o norte, levou a defesa antiaérea para pé de guerra. Seis porta-aviões entraram naquela armadilha e não conseguiram voltar do jeito que tinham vindo. Esses seis porta-aviões estão agora reunidos numa baía de Etorofu. Não são os mesmos navios. São outros seis, muito parecidos, em outro mundo. Mesmo assim, só de ouvir o nome da baía a garganta dele fechou.
— Parem.
A sala ficou em silêncio.
— A gente pega só a zona de recursos do sul. As Índias e as possessões britânicas. Não encosta um dedo em território americano.
— E os americanos vão ficar calados?
— Não vão — ele disse. — Mas um país em que não atiraram precisa de procedimento para declarar guerra. Um país em que atiraram não precisa.
Hashiguchi olhou para ele um tempão. Depois disse:
— Assessor. Esse é o tipo de razão que mais se detesta neste país.
— Eu sei disso.
— Se o senhor diz isso sabendo — o velho almirante baixou os olhos —, eu obedeço.
Estado. Morishita, do Conselho de Planejamento do Gabinete, não tinha mostrado surpresa nenhuma vez desde o começo. Falou sem parar as mãos em cima dos papéis.
— Da manhã da guerra em diante os navios requisitados começam a afundar. O balanço entre perda de tonelagem e construção nova fecha?
— Não fecha.
— Em que ano quebra?
— No verão do terceiro ano, o que der para transportar do sul para a metrópole vai ficar abaixo do que a metrópole precisa.
— Se não fecha, até que ano e com o quê o senhor propõe acertar isso?
— Até o segundo ano, com a forma de uma paz negociada pronta.
— Não depois de vencer?
— Depois de vencer é tarde.
Morishita levantou a cabeça pela primeira vez.
Naquela noite, o único que ele conseguiu fazer de aliado foi, no fim das contas, esse homem.
5
Todas as decisões foram tomadas naquela noite, e depois já não dava para desfazer.
Faltavam dezoito dias. Não eram para pensar. Eram para ver o resultado.
Esses dezoito dias ele já tinha vivido uma vez, em Washington. Aqueles foram uma espera ao lado de uma armadilha montada. Dessa vez era diferente: dessa vez foram dezoito dias defendendo, hora a hora, a decisão de não fazer nada.
No dia vinte e seis de novembro chegou a nota dos Estados Unidos exigindo a retirada da China e da Indochina.
O Ministério das Relações Exteriores tomou aquilo como ultimato. O Estado-Maior se exaltou e disse que, de fato, negociar tinha sido inútil.
Esse papel ele tinha visto quatro anos antes, em rascunho, na véspera do envio. Numa sala em Washington ele conseguiu barrar. Não barrou, porque barrar teria quebrado a armadilha dos dezoito dias.
Agora esse papel estava em cima da mesa, na frente dele.
— Assessor. O que a gente faz?
Ele passou o dedo na borda da folha. Se você cede, recusam. Se não cede, no mesmo dia chega o mesmo papel. Escolha o que escolher, esse papel chega no dia vinte e seis de novembro. A única coisa que ele podia mudar era onde eles iam estar quando chegasse.
— A gente pega só o sul. A linha não muda.
6
Oito de dezembro. Em Kota Bharu começou o desembarque. Em Pearl Harbor não aconteceu nada.
Naquela manhã ele estava na mesma sala embaixo da residência. Ninguém olhava para ele; todo mundo olhava os telegramas. Entravam relatos de todas as frentes do sul e as posições das unidades que iam para os campos de petróleo das Índias avançavam na carta.
Pouco antes do meio-dia chegou outro telegrama.
COMANDANTE DE ESQUADRILHA SUBMARINA SEGUE PARA ÁGUAS DO HAVAÍ POR DECISÃO PRÓPRIA.
Ele leu a linha três vezes. Tinha barrado. Tinha mandado voltar. A ordem desceu, foi recebida, foi confirmada. E mesmo assim uma parte dos comandantes ia para leste por critério próprio.
Hashiguchi chegou perto dele. Em duas semanas o rosto do velho almirante tinha envelhecido dez anos.
— Assessor. Isso é difícil de dizer.
— Diga.
— Suas ordens foram entendidas como covardia.
— …
— Os de cima viram o senhor. Quem viu não duvida. Mas para quem não viu, suas ordens são só ordens covardes. Recuar, se conter, evitar. São justamente essas as ordens que este exército não cumpre. Faz trinta anos que é assim.
Foi aí que ele soube que forma tinha a arma que carregava na mão. Em Washington as ordens corriam. Aqui elas emperram. O mesmo conhecimento, a mesma luz, os mesmos dezoito dias. E mesmo assim, com outro país, a razão circula de outro jeito.
E aí ele notou o pior. Quanto mais prudente a jogada, quanto mais claro que ela é feita porque a pessoa sabe como é a ruína, menos este exército obedece. A própria correção do conhecimento gera resistência.
No fim daquela tarde as unidades que tinham saído por conta própria já tinham sido trazidas de volta. Para trazer, Hashiguchi gastou os quarenta anos inteiros do rosto dele. Pearl Harbor não foi atacado. Naquela noite ele duvidou pela primeira vez de que dava para levar este país à vitória.
7
Aqui também a ligação era fina. No primeiro mês ele confirmou de novo com o outro lado o projeto do radar. A resposta levou três dias. O conteúdo batia quase todo com o que ele tinha recebido em Washington quatro anos antes.
Mas aqui a coisa não ia igual. O rendimento das válvulas era outro. Peças feitas com a mesma especificação davam valores diferentes conforme a fábrica. Faltava material isolante. Não tinha manual para ensinar um mecânico a consertar.
— Dá para fazer — disse o engenheiro. — Se dez por mês servir.
Aí ele soube a forma verdadeira desta guerra. O que falta não é conhecimento. É a velocidade com que o conhecimento vira objeto. Então ele fez quatro coisas. Exatamente quatro.
Primeira. Disse para eles que os códigos estavam quebrados. Quem quebrava e onde, ele não podia dizer. Então disse só: trabalhem supondo que estão quebrados; se a suposição fizer o quadro fechar, é porque estão. Três meses depois, numa sala do Estado-Maior ficaram brancos.
Segunda. Baixou o radar para a forma que dava para fazer agora. Não tem semicondutor; só válvula. O que ele tinha não era um projeto, e sim uma ordem: do que abrir mão para ter isso já. Basta a distância. A marcação pode ser grosseira. Tem que servir de noite. Um ano e meio depois estava no tamanho de embarcar.
Terceira. Deu a posição de Daqing. Embaixo da neve da Manchúria. Se perfurar, tem petróleo. Perfurem fundo. Disseram que não alcançavam. Se não alcançam, comprem máquina que alcance; ainda tem um país que vende, ele respondeu. Mais devagar que o sul. Mesmo assim, um dia vai ser petróleo próprio.
Quarta. Mandou reorganizar os comboios. Não misturar navio rápido com lento. Botar a escolta não na frente do comboio, e sim atrás e nos flancos. O submarino não vem de frente. Ele ultrapassa e fica de tocaia.
Essa última não era técnica, e sim a natureza do mar, e não muda por mais longe que a história deslize. A quarta foi a mais eficaz. A quarta foi também a mais odiada.
— O assessor não falou uma única vez em vencer — disse um jovem oficial do estado-maior.
Ele não respondeu. Responder seria mais um telegrama.
8
Na primavera de 1943 um oficial técnico da inteligência de sinais foi falar com ele.
— Assessor. Subiu um relatório estranho.
— Diga.
— O fogo antiaéreo americano acerta demais.
Ele não levantou a cabeça. Não conseguiu.
— Acerta demais, como assim?
— Os projéteis explodem sem acertar. Basta passar perto. Nenhum país tem uma espoleta dessas em serviço ainda.
Ele olhava a xícara em cima da mesa. A espoleta de proximidade. Que uma espoleta dessas fosse possível, ele sabia. O princípio, o essencial de fazer com válvula: tudo estava na cabeça dele. Era uma coisa que neste mundo ele não tinha entregado para ninguém.
O jovem oficial continuou.
— E pode ser erro meu. Num fragmento de decifração entrou uma palavra sem sentido.
Passaram o papelzinho para ele.
Essa palavra ele conhecia. Uma palavra que naquela época ainda não existia.
— O senhor se enganou — ele disse. Não tinha outra coisa para dizer.
Depois que o oficial saiu, ele ficou muito tempo sem se mexer.
Do outro lado também tinham descido.
E o pensamento que veio depois pesava mais.
Foi ele mesmo que chamou.
Combate em silêncio e vem tarde. Combate com estardalhaço e vem cedo. Neste mundo ele achava que estava combatendo o mais em silêncio possível: sem atacar Pearl Harbor, evitando a batalha decisiva, protegendo os comboios, pensando só na forma de uma paz.
Mas ele não tinha ficado em silêncio.
Botou o radar no mar dois anos mais cedo. Fez eles duvidarem dos próprios códigos. Fez eles perfurarem embaixo da neve da Manchúria. Mudou o jeito de formar os comboios. O que é mudado se vê do outro lado.
O tanto que se vê, o tanto que a balança deste mundo inclina; e o tanto que inclina, o tanto que do outro lado desce mais uma pessoa.
Foi aí que ele sentiu pela primeira vez que tinha entendido a lógica do mecanismo. O quanto ele se move, quem decide é ele. Quando o outro lado chega é decidido por esse jeito de decidir.
Na próxima vez dá para fazer melhor.
Se pegando pensando aquilo, ele sorriu um pouco.
Dos cinco mundos, aquela noite foi provavelmente a primeira vez que ele riu.
9
A guerra acabou na primavera de 1944.
Não foi vitória. Acabou.
A zona de recursos do sul se manteve, os comboios ainda passavam, a frota ainda se movia. Mas fora isso não tinha mais nada em lugar nenhum. Os estaleiros dos Estados Unidos cuspiam navios mais rápido do que ele lembrava, e o dia em que essa curva ia cruzar a curva da tonelagem deste país, Morishita atualizava todo mês a lápis vermelho.
Quatro meses antes do cruzamento montou-se uma mesa de paz.
Perdeu-se muito. Quase tudo o que tinha sido tomado foi devolvido. Mesmo assim os navios estavam no porto e os homens voltaram.
No dia da assinatura, Hashiguchi disse para ele:
— Assessor. O senhor não deixou a gente vencer.
— Não.
— Eu agradeço por não ter deixado a gente vencer. Soa estranho.
— Não, imagine.
— Posso perguntar uma coisa só?
— Pode.
— Para onde o senhor vai depois?
Ele não soube responder. Essa pergunta ele nunca tinha feito para si mesmo.
10
No verão de 1945 chegou.
A guerra tinha acabado. Este país já não estava combatendo. Chegou do mesmo jeito: uma nuvem se levantou sobre um atol distante, no mês que ele conhecia, no lugar que ele conhecia, a coisa que ele conhecia.
Ele tinha movido muita coisa. Pearl Harbor não atacado. O radar no mar dois anos mais cedo. Torres de perfuração embaixo da neve da Manchúria. Comboios que não afundaram. Uma paz um ano e meio mais cedo.
Mas aquele verão não se moveu um dia.
Dois mundos, duas vezes. O mesmo mês, o mesmo lugar.
Ele começou a pensar no que aquilo queria dizer. Começou e parou no meio. Tinha medo de terminar o pensamento.
11
Naquele outono não teve nada que desse para chamar de comemoração da paz. No lugar disso teve uma reunião pequena na residência.
Quando acabou, no corredor de volta para o escritório, tocou o bolso direito.
Ele não parou. Tirou o celular andando. A segunda vez.
ATLAS A operação neste mundo foi concluída com êxito. Suas decisões mudaram este mundo. Escolha o que quer levar para o próximo.
Dizia: com êxito.
Ele não tinha vencido. Só tinha terminado por negociação. E mesmo assim dizia com êxito. Quem está avaliando isso, ele pensou. E ao pensar teve a sensação de já ter feito essa pergunta uma vez.
Ele abriu o aplicativo. Duas linhas tinham ficado pretas.
Missão diplomática Desbloqueado Vantagem inicial em pesquisa Desbloqueado …… Arquivo do almirante Campanhas concluídas 2 Nações concluídas 2 ―――――――――――――――― Próximo cenário Frota moderna Requisitos não atendidos Permanecer neste mundo Requisitos não atendidos
Ele leu a descrição da primeira.
As relações com as grandes potências no início da guerra são melhores.
Ou seja, isso saiu porque eu terminei por negociação.
Percebendo isso, ele ficou um momento no meio do corredor.
As linhas não ficam pretas porque você venceu. O que sai depende de como você terminou.
As duas linhas abaixo do traço continuavam cinzas. Não dá para ficar. Aqui também não.
Ele fechou a tela.
Depois que fechou, o chão acendeu debaixo dos pés dele.
— De novo — ele disse em voz alta.
Mudou o cheiro. Não alcatrão de fumo. Terra queimada, óleo de tungue e o rio. Debaixo dos pés, o afundar de um assoalho de tábuas.
Estava abafado. Do lado de fora da janela tinha neblina.
Em volta de uma mesa comprida homens magros iam se levantando. As fardas estavam desbotadas e algumas platinas remendadas.
O mais velho disse com voz trêmula:
— O Mandato do Céu.
