A história 『No mundo de onde eu venho』

I. Visitante de dois oceanos

20 de novembro de 1941, de manhã — Washington, Sala do Gabinete
Faltam dezoito dias para Pearl Harbor

1

No caminho de casa tem uma ladeira.

Ele estava subindo com a mochila nas costas, olhando o celular. Dentro dela levava o notebook do trabalho e a carteira. Tinha as mesmas coisas instaladas no celular e no notebook, para poder continuar trabalhando de qualquer um dos dois. No bolso direito da calça, o segundo celular, o da empresa: separar o pessoal do profissional era a regra da casa.

No meio da ladeira achou que o poste tinha ficado mais claro, e logo pensou: não. Quem tinha ficado claro era ele. Olhou a mão e ela estava brilhando. O contorno do celular que segurava aparecia por dentro da palma. Não queimava. Não fazia som. Só que, debaixo dos pés, a inclinação da ladeira tinha sumido.

Depois mudou o cheiro.


2

Carpete. Café requentado. Charutos. Caiu uma cadeira, papéis voaram, alguém puxou o ar e alguém não conseguiu.

— Ventilem. Abram as janelas. É um alucinógeno alemão.

A voz de um oficial jovem. Ele não foi até as janelas. Provavelmente não conseguia. Do lado dele, um homem de cabelo branco tinha se ajoelhado no chão e, de mãos postas, começava a rezar. Ele próprio estava de pé. A luz ia se recolhendo para cima a partir dos pés, e quando o brilho deixou a palma o celular voltou a ser um celular comum.

Onde é aqui.

Foi então que tocou o bolso direito. Diante daquele som eletrônico curto, que ninguém naquela sala tinha ouvido antes, todos os olhares se moveram ao mesmo tempo: da figura luminosa para a calça da figura luminosa.

Ele tirou o celular sem pensar. Não tinha razão. Fazia isso havia vinte anos. Em reuniões, em velórios, a gente olha um celular que toca. No meio da Sala do Gabinete dos Estados Unidos, uma coisa que tinha acabado de descer do céu espiou uma placa de vidro na própria mão.

A notificação vinha de um aplicativo que ele nunca tinha visto.

ATLAS Suas decisões vão mudar este mundo. Escolha o que quer levar. Depois, faça como quiser.

Ele abriu. Apareceu uma lista.

 Esquadra de encouraçados de elite Requisitos não atendidos  Força de porta-aviões      Requisitos não atendidos  Grupos aéreos veteranos     Requisitos não atendidos  Exército experiente       Requisitos não atendidos  Herança de navios condecorados Requisitos não atendidos  Economia de guerra       Requisitos não atendidos  Vantagem inicial em pesquisa  Requisitos não atendidos  Herança tecnológica       Requisitos não atendidos  Mobilização industrial     Requisitos não atendidos  Pesquisa acelerada       Requisitos não atendidos  Rede de reconhecimento do teatro Requisitos não atendidos  Missão diplomática       Requisitos não atendidos  Modo ferro           Requisitos não atendidos  Inferno+            Requisitos não atendidos  Ajuste para potências menores  Requisitos não atendidos  Crônica de campanhas      Requisitos não atendidos  Condecorações de vitória    Desbloqueado  Galeria de finais        Desbloqueado  Arquivo do almirante      Desbloqueado  Título de capitânia       Requisitos não atendidos  ――――――――――――――――  Próximo cenário   Frota moderna         Requisitos não atendidos

Vinte linhas, e mais uma abaixo do traço. Das vinte, dezessete estavam cinzas e só três pretas, e as três pareciam servir para registro. Ele tocou na mais baixa.

 Arquivo do almirante   Campanhas concluídas  0   Nações concluídas   0   Dificuldade máxima  —

Zero.

Ele ficou olhando o número. Se tem um zero, é porque tem um um. Ficou assim por uns bons minutos. Durante esse tempo onze homens observaram em silêncio alguém tocando em algo que eles não viam. Ninguém riu. Ninguém entendia o suficiente para rir.

Ele guardou o celular, levantou a cabeça e disse as primeiras palavras.

— Onde é aqui?


3

Houve um silêncio longo. Quem respondeu foi o homem de cabelo branco que continuava de joelhos; ele levantou os olhos sem se erguer e falou como se tivesse que arrancar aquilo de dentro.

— Washington. A Sala do Gabinete.

— Que dia é hoje?

— Vinte. De novembro.

— De que ano?

A garganta do homem subiu e desceu.

— Mil novecentos e quarenta e um.

Ele fechou os olhos. Vinte de novembro de 1941. Dali a dezoito dias, de manhã, a Frota do Pacífico deste país ia queimar nos próprios ancoradouros. São menos os adultos que não conhecem essa data do que os que conhecem.

Eu vim para o passado, ele pensou. Calma, disse a si mesmo. Eu sei quase tudo o que este país vai fazer nos próximos quatro anos.

Depois notou outra coisa. Por que a gente está se entendendo. O homem de cabelo branco tinha falado em inglês e ele tinha respondido em inglês. Na hora não percebeu; percebendo, viu que não era o inglês que ele sabia. Saía da boca dele como língua materna. Levou a mão ao celular no bolso. Sem motivo. Só levou. Não veio resposta de lugar nenhum.

— E o presidente?

— Está esperando na sala ao lado. Já, já.

— Posso saber o seu nome?

O homem de cabelo branco fez uma cara de quem não entendeu a pergunta. Mesmo assim respondeu.

— O presidente Leland G. Whitfield.

Ele não se mexeu. Não era um nome que conhecesse.

— E o seu?

— Dean Mercer. Assessor do presidente.

Desconhecido.

— E esses senhores?

— O general Russell Vaughn, chefe do Estado-Maior. O almirante Curtis Maddox, chefe de Operações Navais.

Desconhecido. Desconhecido. Nenhum conhecido.

Ele não sabia de cor o gabinete de quarenta e um. Mas o nome do presidente ele sabia. Esse nome o mundo inteiro sabe. E aqui não estava.

Um frio desceu pelas costas dele. Isto não é o passado. É parecido. É assustadoramente parecido. A data, a sala, as duas cartas náuticas em cima da mesa, o que está para acontecer: provavelmente quase tudo bate. Mas não é a mesma coisa. Pode ser que o que ele sabe já não sirva.

Ele não disse nada disso para ninguém. O que disse foi isto:

— Daqui a dezoito dias, na manhã de oito de dezembro, uma força de porta-aviões japonesa vai atacar Pearl Harbor.


4

Convencer todos levou menos de um minuto. Ele ia pensar nisso muitas vezes depois.

Não precisou de provas. Não precisou acertar um acontecimento futuro nem fazer um milagre. Onze homens viram a luz descer no mesmo instante. Isso bastou. As pessoas são desconfiadas, mas quem viu com os próprios olhos é outra coisa. Todo mundo que estava fora daquela sala ia continuar duvidando dele por quatro anos. Os onze que estavam dentro entregaram quase tudo para ele antes de o dia acabar. O assessor que tinha se ajoelhado chamou aquilo de sinal. Só o major Ashby, da inteligência, manteve até o fim a teoria do alucinógeno; e até ele estava, no dia seguinte, reescrevendo por orientação dele o plano de patrulhas do Pacífico norte.

Se acreditavam ou não já não era a questão. O que mudar em dezoito dias, com a autoridade que tinham dado a ele. Só isso.


5

Fizeram três perguntas para ele.

Terra. Vaughn, o chefe do Estado-Maior, abriu um mapa do Pacífico.

— A guerra pode começar já esta semana. Mas onde cai o primeiro golpe? Não dá tempo de mandar reforços suficientes para as Filipinas. A gente segura, ganha tempo, ou se prepara para outro ponto fraco?

— Vêm os três.

— Os três.

— Havaí, Filipinas, Malaia. Na mesma manhã.

Vaughn largou o lápis.

— O que a gente consegue mandar para as Filipinas?

— Navios não chegam a tempo. Os aviões sobrevivem, desde que não sejam queimados no chão.

— Como assim?

— Naquelas ilhas os aviões queimam enfileirados na pista, depois que o aviso do ataque já chegou. O aviso chega; não chega a tempo. O que é lento demais é o intervalo entre receber o aviso e decolar.

Depois disso ele falou quarenta minutos sobre dispersão e evacuação, sobre onde o combustível fica guardado e onde as equipes de solo estão alojadas. Vaughn anotou tudo.

Mar. Maddox, o chefe de Operações Navais, tirou o plano de fundeadouros de Pearl Harbor.

— A frota está concentrada aqui para dissuadir o Japão. Ela está mesmo dissuadindo alguma coisa? Ou são alvos enfileirados?

Ele se impressionou com o quanto a pergunta era exata.

— Alvos.

— Então a gente manda sair?

— Não.

A sala se agitou.

— Deixem eles. Os encouraçados ficam no porto.

— Sabendo que o ataque vem, deixar?

— Sim.

— Me dê a sua razão.

Ele puxou o ar. Aquele era o terreno mais difícil dos dezoito dias.

— Se a frota sumir do porto, eles cancelam o ataque. Cancelam e esperam a próxima oportunidade. Quando vem a próxima, eu não sei. O que eu sei é a manhã de oito de dezembro.

A cor sumiu do rosto de Maddox.

— Deixar eles ali deitados. Sabendo.

— Deixar ali. Mas com três mudanças.

Ele levantou três dedos.

— Primeira. Naquela manhã os porta-aviões não podem estar no porto. Mandem para fora. Para nordeste. A razão eu digo depois. Segunda. A defesa antiaérea e o alerta passam hoje mesmo para pé de guerra. Caixas de munição destrancadas. Guarnições nos canhões antiaéreos. Aviões não agrupados nos aeródromos. Redes antitorpedo montadas. Só isso já muda metade do que vocês vão perder. Terceira. Ponham gente nos diques secos, nos tanques de combustível e nas oficinas de reparo. Contra isso eles não vão atirar. Vão embora sem tocar. Não se preparem para o caso de serem atingidos: se preparem para conseguir usar tudo a plena capacidade já na manhã seguinte.

— O senhor pode afirmar que eles não vão atirar nisso?

— No mundo de onde eu venho, não atiraram.

Ele disse isso com todas as letras.

— Neste mundo pode ser diferente. Mas eu aposto.

Estado. Mercer, o assessor do presidente, baixou a voz.

— A opinião pública continua contra entrar na guerra. Se a guerra for inevitável, o primeiro tiro tem que ser deles. Tem alguma coisa que a gente possa fazer além de esperar?

Essa era a mais pesada das três. Atirar primeiro é perder a razão. Esperar é morrer gente. Essa contradição ele não soube resolver. Os historiadores oitenta anos depois também não souberam. Então ele decidiu não resolver.

— O primeiro tiro, que eles deem.

Mercer baixou os olhos.

— Mas — ele continuou — o segundo eu não vou deixar.


6

Todas as decisões foram tomadas no mesmo dia, e depois já não dava para desfazer. Na administração deste país uma decisão vira telegrama no instante em que é tomada. As ordens atravessam o Pacífico, e onde chegam as pessoas começam a se mexer. Para cancelar, o próprio fato do cancelamento vira telegrama também.

Faltavam dezoito dias. Não eram dias de pensar. Ele já não tinha mais nada para decidir; o que era para decidir estava decidido. Os dezoito dias eram para ver o resultado. Toda manhã, ao acordar, ele contava. Dezessete. Dezesseis. Quinze.

No dia vinte e seis de novembro o país mandou para o Japão uma nota exigindo a retirada da China e da Indochina. Mostraram o rascunho para ele na véspera de sair. Ele podia ter barrado: já tinha essa autoridade.

Não barrou.

Barrar teria derrubado o plano inteiro dos dezoito dias. Que aquele papel fosse recebido como um ultimato, que a força de porta-aviões deles zarpasse conforme o previsto e chegasse na manhã prevista: essa era a premissa da armadilha que ele tinha montado.

Naquela noite, no quarto dele, ele abriu o notebook pela primeira vez.

Ligou. A tela subiu como sempre.

O aplicativo de IA estava lá. O que ele usava todo dia para trabalhar, intacto. O mesmo estava no celular.

No celular da empresa tinha uma barrinha de sinal impossível. O dele continuava sem serviço. Conectando pelo da empresa, o aplicativo funcionava.

Ele não entendia nada do raciocínio. Simplesmente chegava.

Na primeira noite ele perguntou sobre a espoleta de proximidade.

A resposta veio. Um texto longo e um desenho simples. O essencial se for feito com válvulas. Como aguentar a aceleração do projétil. Como acordar a bateria. Terminava com a conclusão de que naquela época dava para fabricar.

Ele continuou perguntando. Metalurgia. Controle de produção. Como se faz antibiótico. Respondeu tudo: com cuidado, com o raciocínio junto, e quando não sabia, dizia.

Aí ele perguntou isto.

No dia oito de dezembro, o que acontece se a gente fizer uma emboscada em Pearl Harbor?
Isso eu não sei. O que eu sei vai até o mundo de onde você não saiu.

Ele ficou um tempo olhando a tela sem se mexer.

Na outra ponta da mesma linha fina estava também aquele mundo.

Aquela ponta era pesada. Só texto. Uma foto levava minutos. Às vezes passavam horas, às vezes dias, sem voltar nada.

A mesma pergunta ele fez para uma pessoa.

A resposta veio dois dias depois.

Não existe essa história. Pearl Harbor foi há oitenta anos. O ataque de surpresa é considerado um sucesso.

Ele olhou aquelas linhas por muito tempo.

A história militar daquele mundo não tinha mudado uma página. Fizesse o que fizesse, não ia mudar. E aquele mundo não sabe o que ele fez.

Aquele mundo também conhece só a história dele.

Com o que ele tinha na mão acontecia o mesmo. Tudo o que já estava acumulado, sabia responder. O que vem depois, nenhum dos dois sabe.

De técnica dá para perguntar. Mas de amanhã ninguém sabe.

Ele largou o celular e abriu o aplicativo.

Tinha três camadas. História estabelecida. Tendências. As consequências das próprias escolhas.

A terceira estava em branco.

A razão se encaixou naquela mesma noite. O que ele sabe é a história de um mundo em que ele não entrou. A partir do momento em que estende a mão, o que vem depois ninguém sabe. Nem este celular. Nem aquele mundo.

Em cima, na tela, continuava a primeira notificação.

Suas decisões vão mudar este mundo. Escolha o que quer levar. Depois, faça como quiser.

Ele leu duas vezes.

Quem está dizendo isso.

Escolha o que quer levar. Não tinha nada para escolher. Depois, faça como quiser. Assim fala quem está deixando.

Aí ele parou de pensar. Faltavam dez dias para dormir carregando aquilo.


7

Oito de dezembro.

Naquela manhã ele estava na sala de operações do quartel-general. Ficou sete horas de pé na frente do mapa.

Às 07:55 entrou o primeiro relatório.

Chegou.

Nas duas horas seguintes ele não fez nada. Não tinha nada para fazer.

No porto estava acontecendo exatamente o que ele tinha descrito dezoito dias antes. Os encouraçados estavam lá e foram atingidos. Morreram homens. Nos navios que ele tinha mandado deixar ali, morreram homens.

Mas tinha guarnição nos canhões antiaéreos. As caixas de munição estavam destrancadas. Os aviões dos aeródromos estavam dispersos. As redes antitorpedo estavam montadas. Os incêndios foram apagados.

E os porta-aviões não estavam lá.

Passadas as dez chegou o segundo relatório. Um avião de patrulha tinha encontrado esteiras a nor-noroeste.

Ele sabia que iam vir do norte, que iam pegar a rota do Pacífico norte por onde não passa navio. Isso qualquer criança oitenta anos depois sabe. Mas esse «saber» não dá para explicar. Por isso, dezoito dias antes, ele tinha dado uma única instrução: abrir o leque de patrulhas para o norte.

Às onze, Maddox olhou para ele.

— Assessor. O segundo tiro.

— Sim.

— O senhor disse que não ia deixar.

— Disse.

A nordeste das ilhas estavam três porta-aviões, na posição que ele tinha mandado ocupar dezoito dias antes sem dar razão. Força-Tarefa Um. No comando, o contra-almirante Randall, um homem de quem a Marinha dizia que acreditava na aviação.

O que aconteceu no Pacífico norte daquela tarde até o dia seguinte virou o primeiro capítulo da história naval deste país. Ele não comandou aquele combate. As ordens quem deu foi Maddox e quem se mexeu foi Randall. O que ele fez foi dizer três coisas, dezoito dias antes.

No fim da tarde, a força de porta-aviões japonesa já não conseguia voltar para casa do jeito que tinha vindo.

Naquela noite o presidente Whitfield mandou chamar ele.

— Vamos ter que decidir um cargo para o senhor.

O presidente riu com a cara cansada.

— Vamos dizer «assessor especial». Não dá para escrever «deus» num documento oficial.


8

Na semana seguinte ele fez outra aposta.

Pelo mar da China Meridional descia um comboio de transporte com tropas para a Malaia. No mundo de onde ele vinha, esse comboio concluiu o desembarque sem que ninguém atrapalhasse.

— Dá para atacar?

— A guerra está declarada, dá para atirar — disse Vaughn. — Mas é longe. Não temos aparelhos suficientes com esse alcance.

— Quantos aviões sobraram nas Filipinas?

Vaughn levantou a cabeça. Os aviões que não tinham queimado estavam lá. Os quarenta minutos de dezoito dias antes voltaram naquele momento.

Alcançaram menos da metade do comboio. Mesmo assim o desembarque atrasou, e na medida em que atrasou as tropas que chegaram em terra tiveram que esperar suprimento, e enquanto esperavam chegou a estação de chuvas. A história tinha começado a mudar de forma na largura do dedo dele.


9

Os três anos que vieram depois são uma história de fábricas. Ele não foi para a frente nenhuma vez. O que ele fez foi perguntar, mastigar e entregar.

A espoleta de proximidade embarcou no outono de 1942, quase um ano mais cedo do que no mundo de onde ele vinha. Mudou a proporção de acertos do fogo antiaéreo, e o outro lado levou seis meses para notar a mudança e alterar o jeito de combater.

A ideia de juntar o radar, o rádio e a mesa de navegação numa sala só do navio foi ele mesmo que entregou, com o desenho feito. Isso não é técnica, ele disse, é onde a mobília fica. Onde a mobília fica mudou quem ganhava os combates noturnos.

Para a luta antissubmarino ele entregou a organização do caçador. As escoltas não saem para proteger; saem para afundar. Essa ideia ele trouxe inteira de um manual de oitenta anos depois.

Para a produção ele entregou o uso da estatística. Inspeção por amostragem e cartas de controle de processo. Parece que não tem relação com a guerra, explicou, mas quer dizer que os mesmos projéteis saídos da mesma fábrica vão voar igual. Quatro meses depois a proporção de falhas tinha caído pela metade.

E ele entregou remédios. Ninguém no exército deu valor; ele considera isso a melhor coisa que fez em quatro anos.

Esse tempo todo a segunda camada do aplicativo — a faixa das tendências — foi ficando mais larga. Toda vez que ele fazia alguma coisa, a borda de cima e a de baixo se afastavam. A projeção da produção japonesa, a projeção das próprias perdas: o que era uma linha fina agora era uma faixa larga, vazia no meio. Quanto mais ele metia a mão, menos se enxergava adiante.


10

No verão de 1943 Ashby foi falar com ele, já coronel. Aquele oficial de inteligência que tinha gritado o negócio do alucinógeno.

— Assessor. Subiu uma coisa estranha.

Fotos de peças de um avião capturado.

— Saíram de um dos deles. Aquele país, nesta data, não deveria conseguir fabricar isso.

Ele olhou as fotos. Depois passaram outra folha para ele: um fragmento de decifração.

— E pode ser erro meu.

No fragmento tinha entrado uma palavra sem sentido. Essa palavra ele conhecia. Uma palavra que naquela época ainda não existia.

— Coronel Ashby.

— Senhor.

— Nesses seis meses, a comunicação deles parou de cometer erros?

O rosto de Ashby mudou.

— Como o senhor sabe disso?

Ele não respondeu.

Naquela noite ele ficou muito tempo sem se mexer no quarto. Combate em silêncio e vem tarde. Combate com estardalhaço e vem cedo. Ele tinha combatido com estardalhaço. Tinha botado a espoleta na rua um ano mais cedo, tinha emboscado uma força de porta-aviões, tinha desmontado um comboio, tinha mudado a forma da história. Esses rastros o outro lado também estava vendo. Foi ele mesmo que chamou.

Foi aí que ele sentiu pela primeira vez que estava enxergando a lógica do mecanismo. O quanto ele se move, quem decide é ele. E quando o outro lado chega é decidido por esse jeito de decidir. Não é maldição. É um instrumento com escala. Dessa vez ele usou sem ler a escala. Se tiver uma próxima vez — e, se pegando pensando aquilo, ele sorriu um pouco. Se tiver uma próxima vez, veja só.


11

A guerra acabou no outono de 1944, quase um ano mais cedo do que no mundo de onde ele vinha.

Acabou de um jeito diferente do que ele imaginava. Não teve nenhuma grande batalha decisiva. Acabou o petróleo deles, acabaram os navios, acabaram os homens capazes de botar avião no ar. A diferença que ele tinha feito em dezoito dias virou, em três anos, esse tipo de diferença. Foi só isso.

As condições foram um pouco mais brandas do que no mundo de onde ele vinha. Dessas negociações ele não participou.

E no verão de 1945 aquilo ficou pronto.

A guerra tinha acabado. Já não sobrava ninguém para usar aquilo. Ficou pronto do mesmo jeito: no mês que ele conhecia, no lugar que ele conhecia, a coisa que ele conhecia.

Ele leu num jornal.

Não se mexeu.

Ele tinha movido muita coisa. Porta-aviões salvos em Pearl Harbor. Uma força de porta-aviões afundada no mar do norte. Aviões das Filipinas não queimados. Uma espoleta no mar um ano mais cedo. Uma guerra terminada um ano mais cedo. A história tinha mudado de forma, de fato, na largura do dedo dele.

Mas aquele verão não se moveu um dia.

O que aquilo queria dizer, ele ainda não conseguia colocar em palavras.


12

No outono de 1945 as comemorações da vitória, atrasadas, duraram três dias.

Na terceira noite ele saiu do salão. Era uma cidade em que ele tinha morado quatro anos. Ninguém sabia o nome verdadeiro dele e ele, em quatro anos, nunca tinha dito. Ia voltar para as repartições e despachar os papéis acumulados durante as festas. O cargo de assessor especial vem com uma quantidade impressionante de trabalho de escritório.

Ele estava indo pelo corredor das repartições quando tocou o bolso direito. Aquele som, pela primeira vez em quatro anos. Ele parou e tirou o celular.

ATLAS A operação neste mundo foi concluída com êxito. Suas decisões mudaram este mundo. Escolha o que quer levar para o próximo.

Ele leu. O próximo mundo.

As mesmas palavras da primeira notificação, só com o tempo verbal no passado. E o «depois, faça como quiser» não estava. Porque eu já fiz, ele pensou; e assim que pensou, se surpreendeu um pouco com a frieza do próprio pensamento.

Ele abriu o aplicativo. Três das vinte linhas tinham ficado pretas.

 Esquadra de encouraçados de elite Desbloqueado  Economia de guerra       Desbloqueado  Crônica de campanhas      Desbloqueado  ……  Arquivo do almirante   Campanhas concluídas  1   Nações concluídas   1  ――――――――――――――――  Próximo cenário   Frota moderna         Requisitos não atendidos   Permanecer neste mundo    Requisitos não atendidos

O zero tinha virado um.

Ele abriu a linha da esquadra de elite. Quando você começar da próxima vez, vai poder levar essa formação, dizia. Quando você começar da próxima vez. Esse aplicativo sabia desde o começo que ia ter uma próxima vez.

Ele olhou abaixo do traço. Tinha duas linhas.

Permanecer neste mundo. Requisitos não atendidos.

Ele pôs o dedo em cima. Não aconteceu nada. Ou seja, não dá para ficar. No corredor de uma cidade em que morou quatro anos, ele ficou um momento parado.

Depois fechou a tela. Não escolheu nada. Dizia que o que era escolhível ia com ele mesmo sem escolher. Tudo, menos ficar.

Depois que ele fechou, o chão acendeu debaixo dos pés dele.

— Ah — ele disse.

O mesmo clarão, quatro anos depois.

Mudou o cheiro. Nem café nem charuto: alcatrão de fumo, papel úmido, papel encerado. Debaixo dos pés, pedra fria.

O barulho de uma cadeira caindo. O barulho de papéis voando. O barulho de alguém puxando o ar.

E tocou o bolso direito.

Ele olhou devagar em volta. Uma mesa de reunião forrada de pano verde. Sete cinzeiros. Na carta da parede, uma linha de lápis vermelho ia do mar da China Meridional até a península malaia. A data dos papéis em cima da mesa: vinte de novembro do ano dezesseis de Shōwa. Catorze homens olhavam para ele. Um deles, um almirante idoso, se curvou fundo.

— Interpretamos isto como o advento de um deus da guerra.

O próximo mundo era o Japão.